Revelando São Paulo

As expressões culturais

Mesa Paulista

Habituados a pensar na cultura de São Paulo pelo foco sócio-cultural da Grande São Paulo, cosmopolita por excelência, temos incorrido no erro de negligenciar a diversidade da culinária paulista no resto do Estado.

A par dos elementos incorporados à mesa paulista nos últimos 100 anos, com o início das imigrações, permanecem, aqui entre nós, aqueles traços característicos resultantes da interação alimentar entre índios/negros/portugueses. Nos alimentos, bem como na forma de prepará-los. Assim a mandioca (frita, cozida, ensopada) está presente na mesa de todos os paulistas. Doce de mandioca é sobremesa apreciada nas festas interioranas. Na forma de farinha apresenta-se soberana na mesa do caiçara (o paulista do litoral e de parte do Vale do Paraíba), acompanhando o feijão (pirão de feijão), os caldos de carnes, de peixes (pirão de carne, pirão de peixe). Farinha sempre produzida na região, nos tráficos (casas de farinha) familiares ou domiciliares, boa que só ela, é por isto mesmo chamada de farinha da terra.

Da mesma forma o milho verde ou seco, doce ou salgado. Sopa de milho verde, ralado, com frango frito é iguaria para ninguém botar defeito. É com a farinha de milho que se prepara o mais conhecido (pelo menos nominalmente) dos pratos paulistas - O Virado. Melhor dizendo: os virados. Virado é “qualquer comida caldenta, bem temperadinha, e mexida (virada) no fogo com farinha de milho”. Virado de feijão, de frango, de carnes. Viradinho de legumes, de queijo fresco, de ovos, de banana.

As duas farinhas, a de milho e a de mandioca, são empregadas, guardadas as peculiaridades regionais do estado, no preparo dos mais diversos tipos de cuscuz e das mais variadas paçocas - paçoca de carne (de caça, de charque, de porco), paçoca de camarão (Litoral, Alto do Ribeira), paçoca de joselim (gergelim).

Fácil de ser transportada, nutritiva e agradável ao paladar, possuía seu lugar certo no bornal bandeirante e do tropeiro paulista como ainda integra o farnel do viajante interiorano. Mostragem de iguarias consagradas da mesa ou de festas paulistas (rojão, bolinho caipira, concertada, rosa-sol, tainha caiçara, virado de feijão,...). Em local adequado e de grande afluxo, poderão estar a cargo dos municípios.

Festival da amizade

O Festival da Amizade é uma celebração da diversidade, um encontro fraterno, uma grande festa a que se somam em torno de 40 grupos de danças folclóricas, representantes da mais de 25 comunidades estrangeiras de várias etnias. Através da multiplicidade de sons, de ritmos e danças, de cheiros e sabores, buscamos celebrar a riqueza multi-cultural da cidade e do Estado de São Paulo. Mas não apenas a celebração. O Festival da Amizade inscreve-se também nas iniciativas por uma cultura de paz, abraçada por diversas instituições e entidades irmãs em todo o mundo. Reunidos na abertura do Revelando São Paulo, os grupos apresentam as danças e os ritmos característicos de suas comunidades. O encontro com os demais grupos e com o público representa também um momento privilegiado para o compartilhamento de experiências, de vivências, selando assim o compromisso de todos com a paz mundial.

Inicialmente restrito – por questões lógicas – a grupos residentes na cidade de São Paulo, o Festival da Amizade já conta com a participação de grupos oriundos de outros municípios do Estado. Com o Festival da Amizade busca-se, além da oferta de lazer e oportunidade de festas:

Batuque

O Batuque de Tietê é parte preciosa da herança deixada pelos antigos escravos. Guardando, inclusive, o nome com que provavelmente era denominada na África, mantém firme a tradição das danças de terreiro que um dia dominaram o Vale do Tietê. Com seu leva e traz, e suas umbigadas, ao som do tambu, do quinjengue, de matraca, guaiá e cuíca, mantém-se viva nos municípios de Tietê, Piracicaba e Capivari.

Bonecos de rua e Cabeções

Bonecos de rua (gigantes) e bichinhos de saias, enquanto expressões populares e tradicionais fazem parte da vida cultural de mais de 25 municípios paulistas. Aparecem durante todo o ano integrando os calendários cívicos, do carnaval e mesmo de festas religiosas em quase todas as regiões do estado. Perderam-se no tempo os referenciais de sua chegada a São Paulo. Mas conservaram-se os traços básicos que os filiam a suas matrizes ibéricas, sobretudo na relação com os bonecos processionais espanhóis (gigantes e cabeçudos/enanos). Variam as denominações dos conjuntos - Juritica (Litoral Sul), Pereirões (Região da Mantiqueira), Maria Angu (Vale do Paraíba e Litoral Norte), Cordão de Bichos (Médio Tietê). São também variados os seus séquitos, quando na rua, da insistência rítmica dos Zé Pereiras (preservando-se os toques característicos do século XIX) à Sacizada (rapaziada mascarada) aos Bichinhos de saias e Pereirinhas (bonecos menores manipulados até por crianças). Buscando dar uma ideia deste universo, reúnem-se no Revelando São Paulo, Pereirões e Pereirinhas (São Bento do Sapucaí – Mantiqueira), Juritica (de Iguape – Litoral Sul), Pereirões, Cabeções e Bichinhos de saias do grupo Piracuara (Fundação Cultural Cassiano Ricardo, São José dos Campos – Vale do Paraíba), Cabeções do Grito da Noite (Santana do Parnaíba – Médio Tietê) e Bonecões e Cabeções do Grupo Abaçaí (São Paulo – Capital).

Caiapós

Cabocladas, Cabocolinhos, Caboclinhos, Indiada, Caiapó, Caiapô ou Dança dos Tapuios são algumas das denominações com que aparecem, em todo o Brasil, folguedos com temática indianista, calcada sobretudo, na visão de um "índio idealizado". Surgem durante o ano todo em nossos ciclos culturais e em festas de oragos e santos de devoção popular. Em São Paulo, denominados Caiapós e Bugrada, são bastante encontráveis, sendo os mais famosos os de Ilha Bela, São José do Rio Pardo e Piracaia.

Encontro de caminheiros

São muitos os municípios que possuem grupos organizados de caminheiros, os romeiros que seguem a pé, em cumprimento de promessa, a todos os centros de peregrinação distribuídos pelo Estado. Há caminheiros que peregrinam, regularmente, até dentro da Cidade de São Paulo. O Encontro de Caminheiros é uma subdivisão do Encontro dos Romeiros.

Carreira de bois

Carreiras de Boi é o nome que, em Porto Ferreira, recebem os cortejos, muitos, que têm os boizinhos, vaquinhas, bonecões e outros bichinhos de saias durante o carnaval. E são muitos os municípios que possuem um animado carnaval de rua organizado, animado e fruído pela comunidade. Com a Carreira de Bois no Revelando serão colocados em destaque os aspectos de nossos carnavais espontâneos, assinalando uma alternativa paulista aos carnavais baianos temporões.

Cururu

Cururu é o repente, o desafio trovado ao som de violas do Médio Tietê. São numerosos, afamados e respeitados os cururueiros (os trovadores) da região. Alguns deles com várias viagens para o exterior. Não há Festa, ou Pouso de Bandeira do Divino sem o cururu que pode varar a noite num revezamento de vários trovadores. E não há cidadão que arrede pé diante de uma porfia de canturiões (cantadores).

Encontro de catira

Catira e cateretê são denominações de nossas danças de sapateado, derivadas do antigo fandango português. Ponteiam todo o Estado, incluindo-se a grande São Paulo. Com os Encontros de Catira buscamos estimular a participação das crianças e grupos de jovens.

Cavalaria

Cavalarias (a denominação mais usual) e cavalgadas como sinônimos de quantidades de cavalos, reunião de pessoas a cavalo, reunião ou marcha de cavaleiros com finalidade de lazer ou mesmo religiosa, são bastante freqüentes por todo São Paulo. O gosto pelo trato com os animais é notável e sua expressão mais significativa se dá nas inúmeras romarias a cavalo e/ou charretes, que se organizam por toda a região rumo ao Bom Jesus de Pirapora a Aparecida ou a Iguape, muitas delas beirando,ou mesmo ultrapassando os 100 anos de existência.

Congado de São Paulo

Congado é sinônimo de encontro ritual de vários grupos de Congos, Moçambiques e assemelhados. Há quase 12 anos, a partir da observação e análise dos congados mineiros e encontros de congos em São Paulo, a Abaçaí Cultura e Arte alimentou a intenção de criar o Congado de São Paulo, oportunidade que se ensejou no Revelando 98. Durante o Encontro são escolhidos e coroados o Rei Congo e Rainha Conga de São Paulo, significativa cerimônia da qual participaram, em 2010, 40 congadas e moçambiques do estado de São Paulo, perfazendo um total de mais de 2.500 congueiros.

Com o Congado Paulista pretendemos promover o encontro das Companhias e Ternos, buscando refletir a diversidade dos grupos em São Paulo e dinamizar suas atividades. Será também oportunidade de encontro das Irmandades de São Benedito e N. Sra. do Rosário, quando será possível a troca de experiências, registro fotográfico, gravação de depoimentos, ampliando assim o cabedal de informações e ensejando a divulgação e dinamização do universo congueiro de São Paulo. Será também oportunidade de aclamação e coroação do Rei e Rainha Conga do Estado de São Paulo, com duração de reinado anual. Congos, Congadas, Cacumbis, Ticumbis e Catopês são cortejos, revelando grande aculturação africana, que aparecem nos mais diversos pontos do país, em festas religiosas, principalmente nas dedicadas à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Às vezes possuem Reinado com rei, rainha e vassalagem, envolvendo parte dramática com embaixadas e lutas.

Mais comumente aparecem na forma de préstitos com os participantes cantando e dançando. São facilmente encontráveis da Paraíba ao Paraná, sendo Minas Gerais e São Paulo sua maior área de concentração. Moçambiques ou maçambiques são folguedos que aparecem durante quase todo o ano nos municípios do Vale do Paraíba, nos que circundam a cabeceira do rio Tietê a noroeste de São Paulo, em todo Estado de Minas Gerais, notadamente a Grande Belo Horizonte. São grupos religiosos que homenageiam com suas músicas e suas danças os santos padroeiros, São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Suas atuações os caracterizam por manobras (evoluções) e manejos de bastões, por vezes complexos, e sapateados que exigem dos participantes destreza ímpar. Seu traço distintivo são os paiás (carreiras de guizos) ou gungas (pequenos chocalhos de latas) atados aos tornozelos dos moçambiqueiros.

Festa de Cosme e Damião

Entre meados de setembro e outubro ocorrem as Festas de Cosme e Damião, cuja data festiva no calendário litúrgico ocorre em 27 de setembro. É a festa das crianças, sempre com distribuição de balas, brinquedos, doces e guloseimas em geral. Da forma mais sincrética envolve católicos, umbandistas, candomblesistas e cidadãos sem identidade confessional de todas as classes sociais. Distribuição feita no interior dos terreiros, nas portas dos templos, de passagem pelas ruas, nas residências, em salões de festas dos prédios, em orfanatos e creches. Em alguns lugares do Vale do Paraíba e da Região Bragantina há um ritual com vários elementos comuns e finalidades similares: a Mesa dos Anjos.

Encontro de grupos cosmopolitas

Encontro performático e amistoso dos vários grupos que, dentro da Cidade de São Paulo, têm nas manifestações populares/tradicionais, a fonte de inspiração para seus trabalhos de música e dança.

Fandangos

Fandango, no Interior Sul e Litoral Sul continua a designar o baile, a folgança com que se animam ocasiões especiais (casamentos e aniversários), bem como danças de sapateado forte (fandango de tamancos e fandango de chilenos) ou uma verdadeira suíte de danças em que os sapateados e palmeados se alternam com os enfiadinhos (figurados). Fandango e danças de pares que aqui apresentamos e que continuam a animar as festas de casamento ou simples encontros sociais, agregando todas as idades. Muitas dessas danças guardam nítidos traços de sua origem nobre: provenientes da corte européia embalaram os salões da corte brasileira e continuam a animar os nossos bailes e festas populares. É assim com os tchotes (carreirinha, marcado, simples, inglês), com a mazurca (simples e de quatro), com as vaneirinhas, o caranguejo, a palminha e tantas outras. Basta começar um arrodeado com seus rufados (sapateios) e palmeados que não faltam dançadores, na roda. Fandangueiros ou folgadores, como dizem.

Folias de Reis

Ternos de Reis, Reisados, Folias de Reis ou simplesmente Reis, fazem parte de um complexo de manifestações do ciclo de Natal. São grupos que, por devoção, por gosto ou função social, peregrinam de casa em casa do dia de Natal até 6 de Janeiro em algumas regiões, e até 20 de Janeiro em outras. Em cantoria fazem uso de temas religiosos, da Profecia ao Nascimento de Jesus Menino, à Visita dos Reis Magos. Cumprem sempre, aproximadamente, os mesmos rituais de chegada e despedida. É tão expressiva a presença das Folias de Reis no Noroeste paulista que quase todos os municípios da região realizam grandes Encontros de Folias de Reis que chegam a mobilizar acima de 50 grupos em cada um.

Folias do Divino

São pequenos grupos de até 5 pessoas, os Foliões do Divino, que visitam as casas das zonas rural e urbana, cantando os feitos e os poderes do Divino Espírito Santo. Recolhem donativos, sempre abundantes para a celebração das Festas do Divino. Aparecem em quase todo o Estado de São Paulo. São muitos os municípios paulistas que realizam Festas do Divino em todas as regiões do Estado com imponência e fartura de comezainas.

Encontros de Irmandades

É grande a quantidade de Irmandades Negro/Religiosas no Estado de São Paulo (de São Benedito, de N. Sra. do Rosário, da Boa Morte...), algumas delas bastante longevas, e as vezes, desconhecidas. Em parceria com a Pastoral do Negro da Diocese de São Paulo, e da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos (Largo do Paissandu), uma das mais antigas do Brasil, buscaremos reunir na Igreja de N. Sra. Rosário, do Paissandu, o maior número possível de premiações, com a intenção de dinamizar este micro-universo cultural. A abordagem central do encontro deverá ser cultural. Da cultura tradicional.

Jongo

Jongo é dança de origem bântu, do mesmo tronco do batuque, ancestrais do samba e do pagode, que resiste em alguns pontos do Vale do Paraíba. Em Taubaté, São Luís do Paraitinga e Cunha, encontram-se os últimos redutos de jongueiros do Vale Paulista que são convidados para esta data.

Encontro de Romeiros

Cavalarias, cavalhadas, cavalgadas, romarias ou procissões a cavalo são um traço comum em todo o Estado, até nos grandes centros urbanos. Durante o Revelando São Paulo 2010 foi realizado o XIV Encontro de Romeiros do Estado de São Paulo. Uma grande concentração de cavaleiros, charretes e carros de boi próximo à igreja de Nossa Senhora do Ó, na Freguesia do Ó, iniciando uma monumental cavalgada até o Parque do Trote, onde aconteceu a benção de animais e entronização da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Encontro de Sanfoneiros

Reunião de sanfoneiros e tocadores de pés- de-bode, num encontro performático, tendo como fio condutor as modas tradicionais que conduzem as danças de pares do interior e outros folguedos de nosso Estado.

Noite de São João

Significativa representação dos rituais e folguedos do Ciclo Joanino em São Paulo, ao redor de grande fogueira e pau de sebo. Será organizada e capitaneada pelos municípios que tenham por oragos São João, Santo Antônio e São Pedro.

Noite dos Tambores

Oportunidade de encontro dos grupos de lastro bântu (batuques, jongos,...) varando a noite toda como de costume nos terreiros coloniais.

Encontro de Violeiros

A viola ponteia em todo o Estado, em especial no Vale do Ribeira e Litoral Sul. A viola caipira e a viola branca, esta feita de caixeta e sempre secundada por rabecas. Com o Encontro de Violeiros estaremos colocando em destaque as performances grupais, em duplas, as habilidades dos solistas, as modas de sítio e as modas tradicionais.

Zé Pereira

Zé Pereira é o conjunto percussivo que ficou sendo o 1º acompanhamento musical dos nossos cortejos carnavalescos em meados do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro. Sobrevive, em vários municípios de São Paulo. Em Iguape, outrora, empurravam os blocos nas ruas. Hoje em dia, o domínio com seus grandes bumbos, caixas, taróis e pratos que despertam a todos com sua pancadaria. Continuam a executar os toques tradicionais: requintado, jambo e nego da cartola, os mais lentos, e o Zé Pereira o mais ligeiro e conhecido.

Contam que, antigamente, alguns Zé Pereiras tinham mais de um bumbo, e tão grandes, que deveriam ser carregados por duas pessoas - o da frente a segurá-lo às costas, como uma mochila, e o de trás que o carregava preso aos ombros pela frente, enquanto o percutia.